Nua para ser sua
Antonio Miranda Fernandes

A noite se estendia pela cidade
Que se aquietava na mansidão...

Eles passeavam de braços dados
Diante de portas abertas...
Salas iluminadas...música de viola...
Samambaias de metro nas varandas...

Ela, levitando de felicidade,
Ia um pouco inclinada para frente
E, vez ou outra, segurando a saia de lado,
Saltitava com um pé só 
e graça
Lajota da calçada, jogando amarelinha...
E ria...e quase o desequilibrava
Rodopiando na inesperada ciranda...

Às vezes, equilibrista no meio fio
Andava de braços abertos e
Passos largos ...de bailarina...
Nas pontas dos pezinhos
Com leveza da garça

E assoprava arremedo de assovio
No “atirei o pau no gato-to-to”...
Perdia o prumo...curvava e rindo
Como menina, voltava e recomeçava...

Na praça casais apaixonados,
Abraçavam-se em beijos apressados
No fluir do tempo célere...

Entraram numa lanchonete...Ele café...
Ela sorvete de creme ao run...na casquinha...
Pazinha de madeira e tudo brincadeira

Continuaram andando e conversando...
Enquanto janelas eram cerradas
Sobre jardineiras de gerânios e malvas,
Sob luzes amarelas de lampiões
Presos a paredes caiadas

Na volta, já com a estrela Dalva
Chamando as cadentes com pedidos,
Ela parou num repente e pediu,
Colando seu rosto no rosto dele...

“Psiu, ouça o trem que me leva
nua para ser sua...”

Ele aguçou os sentidos e olhou
O silêncio do lusco-fusco para escutar

Só ouviu o aroma da dama da noite
E, nos jardins, grilos que iam embora...
Então... ela com o olhar enternecido,
A mão úmida e ardente de emoção
Pegou a mão dele e delicadamente,
Pousou-a sobre o seu coração...

“Querido...meu querido...ouve agora?”